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Um dia para viver
Publicado em Viagens, Washington D.C.
Com a tag Holocausto, Segunda Guerra Mundial, Shoah, Washington D.C.
Diário de Philadelphia
Há muito tempo sob a colossal sombra de New York está Philadelphia, uma das maiores cidades dos EUA e das mais importantes – se não a mais importante – historicamente. A partir dos anos 90 o turismo passou a receber mais atenção da prefeitura e mais turistas aparecem na cidade como consequência, o albergue em que fiquei estava lotado o tempo todo e tinha localização privilegiada para visitar os pontos mais conhecidos do centro da cidade, conhecido como Center City.
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Center City é onde fica a maior parte dos prédios históricos na cidade, boa parte deles ainda em pé desde sua construção, sem réplicas. Esta região – e as outras que conheci – são bastante convidativas a caminhada, as bicicletas são poucas mais pela falta de ciclovias, mas mesmo assim vi algumas. A disposição das ruas segue a regra da maioria das cidades americanas, em quarteirões quadrados e seguindo numeração ou ordem alfabética, o que facilita a localização apesar de, como na maioria das cidades americanas, as ruas serem extremamente longas e terem os detalhes de “north” ou “south” aos seus nomes. O mesmo se repete em South Philadelphia e Spring Gardens, os outros bairros onde estive.


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A maioria dos prédios históricos fica em Center City e podem ser visitados de graça se estiverem abertos. O mais conhecido, e talvez mais importante, chamado Independence Hall é de graça. Foi aqui que a Declaração de Independência e a Constituição dos EUA foram discutidas e assinadas. O prédio sedeava a Assembléia Legislativa da colônia Pennsylvania, por ser uma das poucas estruturas de administração pública e ficar na maior cidade do país à época. Outros interessantes, como o Second Bank of US, American Philosophical Hall e Quaker Meeting House normalmente não estão abertos. Há ainda o Elfreth’s Alley, a mais antiga rua continuamente habitada nos EUA, e a grande maioria das casas em Center City e Society Hill, a maioria delas data do século XVIII e se conservam até hoje.


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A arquitetura da maioria dos prédios históricos é georgiana, construídos com certa simplicidade devido à precariedade da cidade e da colônia. O Second Bank of US adota o estilo neogrego, com fachadas elaboradas e colunas grandiosas, em voga após a independência para ligar o nascente EUA à Atenas democrática, como herdeiros diretos desta forma de governo. Mas a verdadeira jóia da cidade é a Prefeitura de Philadelphia, um enorme prédio em bloco de arquitetura neoclássica inspirada pela Paris do Barão Haussmann que ocupa quase um quarteirão inteiro sozinho. Há ainda uma torre com uma estátua de William Penn, fundador da Pennsylvania, que o tornou o prédio mais alto do mundo entre 1901 e 1908. A riqueza de detalhes e suavidade das curvas, janelas e portas é impressionante, assim como a altura: é muito difícil não ver a torre de William Penn ao lado dos arranha-céus modernos.

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Philadelphia foi fundada para que os quakers e outros sectos e fés perseguidos pudessem viver sem perseguições, e esse caráter tolerante ainda se reflete na cidade: existem muitos imigrantes e é comum ver pessoas de diferentes grupos étnicos ou religiosos convivendo juntos – não tanto quanto em NY ou na Califórnia, mas ainda bastante. Mesmo assim existe certo histórico de protestos raciais e atitudes abusivas da polícia contra minorias.
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O melhor reflexo desta cultura variada está na culinária, Philadelphia foi a cidade onde melhor comi até agora. Experimentei o conhecido Phillly Cheesesteak do Jim’s Steaks e não achei grande coisa, no entanto fui ao Italian Market em South Philadelphia e almocei no Ralph’s, restaurante italiano mantido pela mesma família desde sua construção em 1900, pedi a Vitela à Parmigiana acompanhada por Spaghetti ao Sugo e precedida por uma Caesar Salad, tudo delicioso e da melhor qualidade – a vitela foi a melhor que comi e é uma especialidade da casa. Outro restaurante em South Philadelphia é o Hardena Restaurant, pequeno restaurante indonésio conhecido na região – os donos comentaram que viram gente de Washington vi, mas nunca do Brasil. Comi Beef Rendang, Cozido de Cordeiro e uma combinação de molhos com tiras de carne de soja, tudo em cima de uma porção de arroz compresso e acompanhado por Jasmine Tea por recomendação dos donos, imigrantes indonésios. O sabor foi algo que nunca senti na vida, especialmente no Rendang, e por isso é o melhor restaurante a que fui nesta viagem. Se houver Rendang no Brasil estarei lá.


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É curiosa a relação que os habitantes de Philadelphia tem com sua própria cidade, poucas no mundo tem um apelido tão carinhoso quanto Philly, e este carinho é percebido na maneira como as pessoas falam da própria. Mesmo com todos os problemas que possuem ainda a amam fortemente e veneram seus filhos – mesmo Edgar Allan Poe, que não é de lá e passou 6 anos na cidade teve lá seu momento mais produtivo, onde escreveu por exemplo O Gato Negro -, que Philadelphia continue saindo da sombra de NY para ser mais visitada.

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Como ponto de interesse há ainda a Benjamin Franklin Parkway, avenida inspirada na Champs Elysées de Paris, alinhada com belas árvores, estátuas e museus. Um deles é dedicado somente a Auguste Rodin, porém está fechado temporariamente para reformas. Há também a Basílica dos Santos Pedro e Paulo, uma grandiosa catedral com belos vitrais e arquitetura, e o conhecido Philadelphia Museum of Art, conhecido pelos Rocky Steps, degraus que Rocky Balboa subiu correndo no filme. O museu possui uma belíssica coleção de arte asiática, reproduzindo templos e salas inteiros dentro do museu; o mesmo acontece nas alas de arte européia, onde até mesmo portas da Idade Média nos levam às outras salas. Vale a pena passar alguns dias em Philadelphia para conhecer a cidade, dá para comer e beber bem, ouvir boa música e, de quebra, aprender um pouco de história e cultura.


Publicado em Escritos, Philadelphia, Textos, Viagens
Com a tag Pennsylvania, Philadelphia
Brighton Beach, passagem do tempo
É curioso saber que New York é uma cidade antiga para os padrões norte-americanos e não ver muitos prédios coloniais nas ruas; em Philadelphia apenas os prédios modernos foram construídos no século XX, a maioria das casas na região do centro na realidade foi construída no século XVIII. Talvez por isso a cidade seja capaz de se reinventar com mais facilidade que a maioria no nordeste, fazendo a transição de cidade industrial para centro de serviços melhor do que a maioria, comparar a paisagem de NY com New Jersey é apelação…
Ao mesmo tempo os habitantes mais antigos alimentam certa nostalgia de sua adolescência, até os anos 60. Poucos locais deixam isso mais claro que Coney Island, em Brighton Beach. De um dos mais famosos parques de diversão do planeta, Coney Island ficou abandonada durante décadas a própria sorte, assim como o Brooklyn como um todo não era considerado um local muito seguro durante os anos 70 e 80.

Com a imigração russa a partir dos anos 70 um sopro vida foi dado a região de Brighton Beach, com novos empreendimentos imobiliários sendo erguidos e uma onda de especulação imobiliária voltando ao bairro. Hoje, Brighton Beach tem vida constante como pude ver e Coney Island estava lotada numa segunda-feira a tarde por famílias de judeus ortodoxos até onde a vista alcança, numa cena que me lembrou momentos de Era Uma Vez na América de Sergio Leone no Lower East Side de 1920, dominado pela chegada maciça de judeus a Manhattan.
Ao mesmo tempo, é difícil dizer se o renascimento da região traz de volta os tempos do passado. Sem dúvida é bom ver a praia lotada de famílias se divertindo, assim como um histórico parque de diversões ainda sendo utilizado e renovando o carinho de gerações a frente, que provavelmente contarão aos seus filhos como era bom passear tranquilamente por lá, e que as coisas não são mais as mesmas. É natural do ser humano viver seu ápice quando ainda é relativamente jovem e sempre comparar sua juventude positivamente em comparação com a atual?
Não tenho resposta para a pergunta, tenho algumas suposições, mas ainda distante de parar de pensar no quanto a passagem do tempo nos é cara. Eu que sempre confiei no poder do tempo de cicatrizar as feridas deixadas pela vida, hoje já tenho minhas dúvidas se a consciência precisa de tempo para se desenvolver, ou se simplesmente ficarmos parados e fingirmos esquecer algo que nos incomoda até o sentimento ficar adormecido é solução suficiente. Não sou nostálgico, mas é natural sempre pensarmos em retornar para o começo?
Murray Ostrill fala de Coney Island com nostalgia, sobre como era chamada de o playground do mundo e que era possível dormir na praia. Por mais que Coney Island esteja viva, as coisas realmente mudaram. Eles não dormem mais na praia…

Publicado em Escritos, New York, Textos, Viagens
Com a tag Brighton Beach, Brooklyn, Coney Island, New York, New York City
Hello Brooklyn!
Visitei o borough da moda hoje: Brooklyn. Um dos distritos que compõe New York, o Brooklyn é considerado o primeiro subúrbio norte-americano, foi para lá que a alta classe nova-iorquina fugiu durante a forte expansão de Manhattan para o norte e o enorme influxo de imigrantes estrangeiros. Foi um município independente e chegou a ser a terceira maior cidade dos EUA, atrás apenas de NY e Philadelphia; no fim do século XIX foi englobado por New York City. Mesmo assim até hoje o Brooklyn ainda tem um aspecto de cidade a parte, de fuga em comparação com a “total” Manhattan, é comum alguém que nasceu lá dizer que vem de “Brooklyn, NY” ao invés de apenas New York.


O ar de cidade tranquila é reforçado pelo número mais reduzido de pessoas nas ruas – ainda tem, mas você não se acotovela com o outros – e pellsos grandes parques e praças, em especial o maior da cidade e seu equivalente do Central Park: Prospect Park. Criado pelos mesmos paisagistas do equivalente em Manhattan, Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux, o parque é uma combinação de extensos gramados, ruas para ciclistas e skatistas, áreas de mata fechada, uma delas tem um pequeno zoológico aberto; lagos e córregos. Pelo tamanho e tranquilidade, o isolamento da cidade é total, muitas pessoas aproveitam para tirar sonecas no gramado ou ler livros.


Há também uma casa de barcos dentro do parque, e recém-casados da colônia chinesa passavam com sua entourage para tirar fotos.


Fui ainda à Brighton Beach, um dos centros da comunidade de imigrantes do leste europeu e, para minha surpresa, dos judeus ortodoxos de NY – falarei mais disso posteriormente -, e Coney Island, conhecida como o playground do mundo. O vento e a areia ao rosto, as famílias passeando e as expressões inocentes da criança ajudaram a tranquilizar mais um pouco da minha alma, e me fizeram lembrar que é importante viver, nem que seja um pouquinho, alguns minutos por dia, para combater o capataz chamado rotina.


Publicado em Escritos, New York, Textos, Viagens
Com a tag Brighton Beach, Brooklyn, Cobble Hill, Coney Island, New York City, Prospect Park
Uma experiência definitiva
Parei no número 315 do Bowery, respirei fundo. A cara muda, mas o interior se preservou exatamente da mesma maneira. Estava tudo ali, o balcão, o tijolo aparente pixado, o palco. Let It Loose dos Rolling Stones entrou no som, e aí eu lembrei: entrei no CBGB, que não existe mais.


Respeitado Público
Um dos principais pontos positivos de New York é o bom uso que faz do parco espaço público em Manhattan. Apesar de ser uma ilha fina e comprida, existem muitas praças e pequenos parques públicos em quase todos os bairros, que servem exatamente às pessoas que moram na região; onde estou hospedado, Gramercy Park, há o Madison Square Park, Gramercy Park e Union Square, todos bem arborizados, com esquilos passeando entre os humanos e bons espaços para corrida, Tai Chi Chuan e ler livros no meio da pulsão constante da cidade. Não há um isolamento total (só direi se é impossível depois de visitar o Central Park), mas dá sim tranquilidade, item muito necessário aqui.


Não só nos pequenos parques, o respeito ao espaço público é perceptível nas calçadas; claro, não é um tapete, mas são tranquilas para caminhar mesmo para mulheres de salto; nos parques mais extensos, como o novo High Line; e nas ausência quase total de shopping centers, a grande maioria das lojas fica na beira da rua, sem recuo, assim como os restaurantes, cinemas, teatros e livrarias. O grande benefício é uma intensa vida em comunidade, onde sempre há gente indo e vindo, que reforça a sensação de segurança, com boas opções em seus próprios bairros, precisando realmente se aventurar para longe apenas em situações específicas – falo de Manhattan, ainda não fui aos outros “boroughs” mas me dizem que o Brooklyn é semelhante, enquanto o Queens e The Bronx avançam neste sentido, Staten Island atrás dos dois.

Mesmo sem muito espaço existem soluções criativas, que fazem bom uso do solo plano pela ilha quase inteira. O exemplo
é o mesmo High Line, parque urbano criado no lugar de um trecho de trilhos elevados abandonados pela MTA, empresa que gere o transporte público nova-iorquino. Ao invés de simplesmente implodí-los, foram transformados num parque elevado à maneira do Promenade Plantée de Paris, com muito verde e um deque bom para caminhada e corrida – skate é permitido, mas bicicleta não. Por que não fazer o mesmo com o Elevado em São Paulo?
Por outro lado, o transporte público tem alguns problemas e é muito complexo nos primeiros dias do turista. Pra começar, a rede de metrô atende muito bem a cidade como um todo, existem muitas estações, no entanto por conta da geografia de Manhattan, fina e comprida, não existem linhas que cruzem a cidade na horizontal. Para atenuar todas elas em algum momento fazem uma curva acentuada, quando segue em direção ao The Bronx, Queens, Brooklyn e Staten Island, mas mesmo assim em muitas situações é preciso andar vários quarteirões para achar uma estação. As estações em si não são como em SP, onde vocë escolhe seu destino após passar a catraca, algumas estações indicarão na entrada na rua qual o sentido do lado em que você está entrando, no meu caso, a estação ais próxima é, de um lado da rua, Uptown & The Bronx, do outro, Downtown & Brooklyn, e se você passar a catraca, perdeu. Outro ponto, em algumas regiões da cidade as linhas correm em paralelo e não há pontos de encontro entre elas, logo para trocar você precisa sair do trem, andar, entrar na outra estação para descer naquela que pretende. Por isto existem ruas que tem mais de uma estação, sendo o nome exatamente o mesmo, o que gera mais confusão. Como exemplo, na 23rd Street, próximo de onde estou, existem três estações de metrô diferentes para linhas distintas, e as três se chamam 23rd Street. Há, ainda, a característica de cada linha de metrô, algumas são expressas, ou seja, param apenas nas principais estações, e existem as locais, que param em todas. Poderia ser mais fácil e amigável, mas com um pouco de prática é possível entender a lógica.
Ainda assim, em termos de preservação do espaço público e extensão da malha do transporte público, NY está muito a frente de maioria das cidades. Combinando o apreço a necessidade de movimento com a preservação do aspecto de comunidade em seus bairros, NY mostra que entende o quão importante é ter uma cidade vibrante à vista e sem se guetizar. Que as outras se mirem nos exemplos positivos – e não no esquema metroviário daqui, os turistas agradecerão.
Publicado em Escritos, New York, Textos, Viagens
Com a tag Espaço Público, Metrô, New York, New York City, Transporte Público
Ocupando NYC
As visões são variadas e as vezes distintas por poucos metros de distância. A disposição é única, assim como o sentimento que dá fundamento à ação: desgaste e raiva direcionada a um sistema que se parece se tornar cada vez mais injusto para quem deveria sofrer menos com ele. Bem-vindos a Manhattan nos tempos do Occupy Wall Street.
O movimento tem sido considerado um dos subprodutos da Primavera Árabe. Usando a tática de mobilização massiva e ocupação visível do espaço público, o protesto é direcionado principalmente contra o aumento da disparidade econômica entre os 1% mais ricos e os outros 99% – como dizem, “We’re the 99%” -, o domínio da máquina pública pelos lobistas em Washington, D.C., e a falta de representatividade pelo Congresso americano, tendo como ponto de partida a crise financeira iniciada em 2008 causada pelos grandes bancos de investimento de NY, paga pelos contribuintes americanos e sem solução para quem perdeu sua casa, emprego e padrão de vida.
O que era uma ocupação de apenas algumas pessoas se tornou uma comunidade marcada pela solidariedade: no Zuccotti Park, uma praça sem grande significado quase na esquina da Wall Street real, pessoas normais cuidam do lixo, da alimentação, do tratamento da água…administram uma cidade? Quase lá…
A praça ganhou significado, e já é associada ao movimento pelos nova-iorquinos e turistas na cidade, este é o grande trunfo dos protestos: tirar a ação do virtual para a realidade. Locais tem efeito forte em nossa mente, nós não viajamos para o Egito simplesmente para entrar no Twitter e escrever “essa comida halal é boa mesmo #egypt”. Vamos para tirar uma foto das Pirâmides e admirar um feito de engenharia e engenhosidade muito a frente de seu tempo, que ficará marcado para sempre.
Da mesma forma, o OWS não se limitou a um jogo da velha engraçadinho numa rede social, trouxe o povo às ruas e fez com que suas preocupações fossem debatidas a sério – como deveriam estar sendo há pelo menos 10 anos. A praça agora é a àgora, e depois da ocupação da Times Square por milhares hoje, parece que ainda vai demorar para ser desocupada.
