Quando li o artigo de Fareed Zakaria, jornalista da CNN e presença comum no Washington Post entre outros jornais americanos, sobre o perigo de que, na definição do Financial Times, a bicicleta econômica brasileira está ficando mais difícil de pedalar, achei-o bem escrito e bastante lúcido sobre os desafios que se aproximam de nossa economia em um futuro próximo. Infelizmente não prestei atenção ao ponto mais importante: Zakaria falou que o jogador de futebol Carlos Tévez recebeu uma proposta de 55 milhões de dólares de um pequeno clube de São Paulo, Corinthians. Imaginei que o detalhe, que só percebi na segunda lida e foi desnecessário, tivesse relação com a dimensão do futebol global, o que está bastante claro no texto e foi confirmado em sua nota de esclarecimento publicada hoje, tendo como base as cifras comuns no futebol europeu e não no latino-americano.
Não é a primeira vez que acontece, a conhecida Four Four Two, revista futebolística inglesa, chamou o São Paulo de “bambis” como se fosse o apelido carinhoso do clube. Mas o termo está relacionado ao fato de que em China, Indonésia, Israel, África do Sul, Estados Unidos as pessoas estão interessadas em assistir Manchester United x Liverpool, Barcelona x Real Madrid, Chelsea x Arsenal, Inter Milan x Milan, porque são times presentes no planeta todo, e este é um dos motivos porque são muito mais influentes e tem um campeonato muito mais forte, que são competitivos exatamente por causa do grande número de jogadores latino-americanos em seus times, que saem dos seus países de origem porque os campeonatos locais não possuem organização, estrutura e alcance comparável aos estrangeiros. Neste aspecto todos os times brasileiros são pequenos, irrelevantes. Pesquisas atuais indicam que o time de maior torcida do mundo é o Manchester United, para desespero dos flamenguistas que desprezam as pesquisas porque nem todos os fãs do Man Utd são “torcedores de verdade”, como se isso fosse definível… – e é difícil imaginar que algum dia um time brasileiro chegará a este posto.
Mas o detalhe vazou e o que não tinha significado algum conseguiu virar notícia nos principais portais, na tradição do jornalismo brasileiro, principalmente o esportivo, de viver das polêmicas verdadeiras ou falsas. Os rivais corinthianos aproveitaram a situação, sendo que os provocados apontaram como nada mais colonizado do que usar veículos estrangeiros para se agarrar a uma suposta verdade. Ao mesmo tempo, nada mais provinciano do que achar que “os gringos” não sabem nada do Brasil e que por isso eles seriam ignorantes e não têm crédito algum, como se todos eles conhecessem a capital da Austrália…
O Corinthians é gigante, impossível negar, não seria um artigo de jornal que mudaria isso, por isso achei fora de propósito a reação nas redes sociais. E, claro, o debate em torno do artigo ficou completamente perdido. Não parece interessante o Brasil estar num ponto em que pode ter uma liga forte, disputada, e com condição de manter seus talentos perto da torcida. Curioso mesmo é que um artigo semelhante foi escrito esta mesma semana, voltado para o futebol, pelo jornalista Paulo Vinicius Coelho e seguia a linha de Fareed Zakaria, mas sem polêmica não há interesse público. Afinal de contas, quem se importa em ter um bom campeonato com times competitivos e sem contratações que dependem de “grupos de empresários”?