O que nós, brasileiros, procuramos no Japão vem da atração pelo oposto? É possível que sim, que a serenidade e a ordem que associamos a muitas de suas expressões seja uma compensação para nossa afobação e bagunça. Mas a própria maneira como os descendentes de japoneses se adaptaram ao Brasil faz pensar que talvez eles não sejam tão antípodas assim. Precisamos pôr mais nuances aí. E quem sabe concluir que o que escolhemos gostar na cultura japonesa não se deve a esse jogo binário de semelhança e contraste, pois o bom do ato de admiração é que ele pode ter sua lógica interna, sua razão inerente. Gostamos do que gostamos porque tais traços são em si admiráveis.
Sempre convivi muito com eles. Estudei com muitos, e a maior parte de minhas namoradas foram japonesas (confesso uma certa fraqueza por olhos puxados). Curiosamente nesse período não gostava da culinária, e era raro ir a restaurante japonês; hoje sou capaz de devorar em segundos uma dúzia de niguiris. Um dos recantos de que gosto nesta caótica São Paulo é o Pavilhão Japonês, no parque do Ibirapuera, aonde vou sempre que posso ou preciso.
No que pese a articulação de Hugo Chávez e a irresponsabilidade brasileira em intervir – ao estilo dos EUA e outros países que sempre foram criticados (com justiça) -, além da tentativa de Manuel Zelaya de forçar via plebiscito sua continuidade no poder, instrumento de longa história entre pessoas que não tem apreço pela democracia ou alternância de poder como Álvaro Uribe e outros colegas latino-americanos, o fato é que o golpista é Roberto Micheletti. “Impeachment”, da maneira que for prevista ou não, não significa acordar o presidente eleito com um fuzil na cara e expulsá-lo do país, significa sua remoção do poder legalmente ou forçar sua renúncia. O Brasil pode ajudar a normalizar a situação constitucional de Honduras, mas dar abrigo a Zelaya contando com a ajuda de Chávez e fazer cara de que não sabia de nada não é o meio mais inteligente.
Hugo Chávez não sabe quem foi John Milton. No Areopagítica, de Milton, está escrito: “Aquele que mata um homem, mata uma criatura da razão, feita à imagem de Deus, mas aquele que destrói um bom livro, mata a própria razão, mata a imagem de Deus”. Subtitulado como Um Discurso ao Parlamento da Inglaterra pela Liberdade da Impressão sem Licença e publicado em 1644, no auge da guerra civil, o texto contém a mais clássica das justificativas racionais contra a censura. Milton acreditava na razão humana e, portanto, na capacidade das pessoas de distinguir as boas ideias das más. Chávez também acredita nela – e justamente por isso empreende uma campanha estatal contra a liberdade de imprensa.
George W. Bush invocou a palavra “terrorismo” para trair o compromisso dos EUA com os direitos humanos e legalizar a tortura. Mas tudo começou com terroristas de carne e osso, que fizeram o fatídico 11 de setembro de oito anos atrás. Chávez apropriou-se da palavra para, mesmo sem terroristas, delinear uma campanha internacional: em março de 2008, Caracas sediou o 1º Encontro Latino-Americano contra o Terrorismo Midiático, um evento destinado a combater jornais e redes de TV que seriam “porta-vozes dos interesses imperiais”. O canal noticioso venezuelano Globovisión converteu-se, então, no alvo de um governo que já fechara a RCTV. Há pouco, em meio a pressões oficiais contra o canal, uma turba chavista invadiu suas instalações. Já se usam tropas de assalto para calar a imprensa, no país cuja candidatura ao Mercosul é patrocinada pelo governo brasileiro.
O tráfego das almas
interrompido pelo excesso
Um anseio inominável
Conhecido apenas por quem ousou ousar
Olhos que não posso encarar nem em sonhos
Tateando o cosmo às cegas.
Um toque
Um alarme
Uma paralisia
Um alento.
Que se passe a vida sem poder viver
É ouvir o português sem seu ritmo
Na ausência de epopéia resta o vazio
E na ausência do vazio resta o quê?
Que se retirem as máscaras da civilização
E o ágape seja pleno
Dê-me o pulsar dos dias
E então o mundo poderá me interromper com um sussurro.
As mulheres são loucas. E imprevisíveis. “Ela é maluca! Brigou comigo só porque eu fiquei no bar até quatro da manhã!”, “Ela é louca! Deixei um scrap pra uma amiga e ela ficou com ciúmes!”. Oras, além de loucas ainda são chatas…
Mentira. As mulheres não são loucas. Nem imprevisíveis. Nem chatas. Tudo bem, posso dizer que são sim, mas só na mesma proporção que todas as pessoas também são loucas, imprevisíveis e chatas. Na verdade esse pseudo-argumento todo não passa de uma estratégia pra encerrar a discussão sobre ir ao jogo do Corinthians quando ela queria passar a tarde vendo Ela É Demais no DVD.
O São Paulo sem dúvida é um dos favoritos ao título. O time voltou a jogar bem e o principal: seu futebol voltou a agradar à torcida. Ricardo Gomes certamente tem sua responsabilidade, o São Paulo agora consegue trocar passes no chão, sem depender tanto de chuveirinhos e contra-ataques, ainda assim consegue mostrar variação tática mesmo quando não joga tão bem, como na última rodada contra o Fluminense com gol de Richarlysson aparecendo de surpresa dentro da área, com a bola no chão. Se mantiver este nível, e levando em conta seu elenco forte e os jogos contra Inter, Palmeiras e Atlético-MG no Morumbi, o São Paulo tem grandes chances de levar o hepta. Uma outra questão que muito me acossa: será que uma determinada torcida organizada tricolor, que tem outros seguidores “comuns”, gritou ou comemorou o autor do gol no último jogo? Só curiosidade mesmo.
VOLTOU? [2]
A vitória do Corinthians e o futebol minimamente consistente apresentado talvez mostre que seu jogo competitivo voltou. Claro, se for derrotado pelo Botafogo no Pacaembu no próximo sábado as duas últimas vitórias serão jogadas no lixo pela maior parte da “crítica especializada”. Em um jogo com muitos desfalques e contra um dos grandes times brasileiros atualmente, o Corinthians tinha tudo para perder, mas jogou com muita vontade no esquema de 4-3-3 usado no primeiro semestre e se saiu melhor que o Inter no todo. Claro, isso será ignorado pelos torcedores convenientes e pela “crítica especializada”, que focará nos gols em impedimento, talvez ignorando outros erros a favor de outros times. Os mais exaltados apontarão conspirações e dirão que o título está comprado, ignorando também que Inter e Palmeiras, além do São Paulo, tem mais chances de serem campeões. E, óbvio como tudo neles, encerrarão com a pífia frase-chavão, encerra-assunto, jargão-final, “2005, o ano que não acabou”. Pelo menos são previsíveis, mais fácil de desligar o cérebro e entrar em stand-by.
VOLTOU? [3]
Em Palmeiras x Coritiba Obina voltou a ser Obina. O Coritiba fez o gol da vitória em um pênalti tolo – e que eu não marcaria de maneira alguma – do igualmente tolo Marcão. Muricy costuma levar algum tempo para ajustar os times, mas no caso do Palmeiras a equipe já estava bem ajustada e jogando um bom futebol nas últimas partidas, mas há de se levar em conta a ausência de Diego Souza que vinha conduzindo o meio-campo alviverde. Será interessante companhar os próximos jogos e o comportamento do Palmeiras.
VÃO VOLTAR?
Náutico, Botafogo, Sport e Fluminense, se já não estiverem preocupados, devem começar a se preocupar. Apenas o Náutico tem um time que dificilmente escapará do rebaixamento. O Sport tem praticamente o mesmo time do primeiro semestre que fez campanha digna na Libertadores, mas desde então desaprendeu a jogar futebol, boa parte dos jogadores dão caneladas durante o jogo. O Fluminense também não tem time para ser rebaixado, mas com sua diretoria que consegue se destacar por ser ainda pior que a já péssima cartolagem brasileira, pode enfrentar a Segunda Divisão novamente. O Botafogo tem feito péssimas partidas como a última contra o Santo André, mas pode se salvar se tiver uma marcação aplicada e saída rápida como no jogo contra o Palmeiras. O rebaixamento seria péssimo também para a diretoria, nesse momento um oásis de responsabilidade entre os clubes cariocas. Também é bastante óbvio mas precisa ser dito: a torcida não tem ajudado em nada com seu comportamento.
OBEDECE QUEM TEM JUÍZO
A dona do futebol, ou melhor, A Dona do Futebol alterou o clássico entre Santos e Corinthians de 6 de setembro, domingo às 16 horas, para 2 de setembro, quarta-feira, às 22 horas (ou o horário em que terminar a novela). Ufa, pelo menos o jogo ainda vai ser no Pacaembu…!
O Radiohead lançou recentemente para download em seu site duas novas músicas: Harry Patch (In Memory Of) e These Are My Twisted Words. A primeira é uma homenagem ao soldado britânico de mesmo nome, último sobrevivente da Primeira Guerra Mundial, e é surpreendente principalmente pelos sons inteiramente orquestrais: não há qualquer instrumento elétrico ou sombra de música eletrônica; os arranjos foram compostos por Jonny Greenwood e são bastante interessantes, confesso que fiquei surpreso, e acho que há espaço para experimentar nesta direção, mas o resultado não é tão agradável, certamente não é fácil de ouvir para todos. A segunda segue uma batida constante, mecânica, ditada pela bateria de Phil Selway e acompanhada pelos outros instrumentos, o que revela uma certa influência de drone e grupos como Can, Kraftwerk e Neu!, mas o que realmente se sobressai é o tom soturno que permeia toda a música. Achei mais interessante que Harry Patch, mas chama a atenção a possibilidade de o Radiohead fugir das harmonias suaves de In Rainbows e buscar novos rumos à sua música. Seria a sua consagração como o que há de melhor no pop hoje.
O dito é de Lou Reed, mas o Cymbals Eat Guitars em nada lembra o saudoso ex-vocalista do The Velvet Underground. Se lembra algo, é certamente grandes do rock independente como Pavement, Pixies e Built to Spill. A abertura de seu álbum de estréia, Why There Are Mountains com …And The Hazy Sea é uma declaração que contém muitas idéias, condensadas em pouco mais que 6 minutos em uma série de paradas, crescendos, murmúrios e gritos entremeados por “wah-oh-wah-oh-wah-oh”’s e guitarradas. O outro destaque é Cold Spring, que foge do explosivo e busca o épico, pontuada por violinos e um piano, mas como a primeira, com muitas idéias. Uma banda bastante promissora.
PARDOS QUE OS QUERO PARDOS
Em seu álbum mais recente, Veckatimest, o Grizzly Bear adota um som muito mais direto que no genial Yellow House: as músicas têm mais influência do jazz e uma produção ambiciosa. Se no álbum anterior era possível se imaginar sentado na cama vendo o grupo tocar em seu quarto, tamanha era a intimidade que as canções traziam, no último o Grizzly Bear vira uma banda “grande”, desafiada apenas pela sua própria ambição em se superar a cada esforço. Não que Veckatimest seja melhor que Yellow House. Não é. Mas é admirável que um grupo possa lançar três excelentes álbuns e não demonstrar qualquer sinal de queda de rendimento.
Protesto em Honduras contra Zelaya. Mas poderia ser em Brasília.
Que a bancada governista não é para qualquer um já sabemos. Afinal, são poucos os lugares onde se têm pessoas da estatura de Collor, Calheiros, Sarney, Maggi entre outros fétidos do país inteiro. Mas os últimos meses (anos? décadas?) têm sido de arrepiar: Lula defende Sarney. Sarney afunda em uma mar de lama que está pelo menos trinta anos atrasado. O Senado, igual, mas só vinte anos atrasado. A Petrobrás, igual, mas uns quarenta anos atrasado. A defesa (ou justificativa)? Faz parte do sistema, é próprio da natureza humana…a lista é longa, mas apresenta uma série de argumentos convenientes que no fundo diz algo como “sim, nós sabemos que isso é errado, mas vocês cidadãos agem igualzinho, são tão humanos quanto nós, portanto não podem reclamar de nada, hipócritas”. O pior? Em parte eles têm razão. Na maior parte, ufa!, não. A apatia da sociedade brasileira representa grande parte do desmando em que se metem os políticos para assegurar seus interesses próprios e garantir a tal da governabilidade. Sim, caro leitor, você adivinhou: ainda não sabemos separar o público do privado. Coisa que já foi dita por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, mais um dos livros que muita gente cita e pouca gente leu. E você adivinhou de novo: não há uma “elite” que domina o país há 500 anos, há sim uma burocracia que muta ao longo dos anos exatamente para se sustentar às mudanças do país – que não é o mesmo há sabe-se lá quanto tempo -, criada por uma arquitetura institucional tosca e uma mentalidade tão dura quanto. Afinal, como explicar o fato de um ex-operário nordestino – em tese, conhecedor do povo e diferente de todos os ex-presidentes – chegar lá e atuar da mesma maneira que oligarcas tão ilustres? Lula fará parte desta “elite” quando terminar seu governo, qual será então a análise de seus compadres para os males do Brasil? Por que insistem em dizer que nossa democracia amadurece quando voltamos a ter censura? Sendo que todos as conversas do filho de Sarney podem ser encontradas na internet, conforme disse Marcelo Tas em seu twitter…
(Cuidado com a foto abaixo, não a recomendo para estômagos fracos)
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(Você foi avisado…)
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Desembargador Dácio Vieira que determinou a censura ao Grupo Estado; sua mulher Angela; a mulher de Agaciel, Sanzia; José Sarney; Agaciel Maia; e o senador Renan Calheiros no casamento da filha de Agaciel.
Já havia dito em assunto diferente mas com tom semelhante que no Brasil há um vício, uma atração absolutamente irracional e irresponsável pela canetada, a solução fácil sem avaliações de impacto ou planejamento. No fundo, é a vontade aparentemente incontrolável de pegar a contra-mão de tudo que se observa na realidade. E o que se observa em São Paulo é que o transporte coletivo, ainda que privado, é boa parte da solução para o trânsito da cidade, mas a Prefeitura para variar escolheu o caminho mais fácil: deu uma canetada, restringiu os pontos de parada dos ônibus fretados e vetou sua circulação em algumas avenidas.
Entendo alguns pontos que considero discutíveis: já vi muitos fretados parados em fila dupla em avenidas de grande circulação, como a Paulista e Faria Lima, mas nem de longe justifica uma medida desse tamanho. Outra razão dita era o uso dos pontos e corredores de ônibus pelos fretados. Entenderia uma restrição, por exemplo, ao corredor da Avenida Rebouças que já está saturado pelos próprios ônibus públicos, mas da mesma maneira não é razoável. Começo a achar que o objetivo é flagar fretados violando a zona de restrição e convocar a Companhia de Engenharia de Tráfego para o que ela (também) mais gosta: canetada! Mas prefiro pensar que o objetivo da Prefeitura é o bem estar de seus cidadãos e não a arrecadação…afinal, nosso nobre alcaide ama esta cidade, assim como um de seus alcoviteiros que chamou o balanço do primeiro dia de positivo, ignorando o fato de ter fugido para não apanhar de alguns descontentes, que protestaram e fecharam algumas avenidas, pessoas que “preferem apelar para atitudes radicais, prejudicando milhões de pessoas que precisam chegar a suas casas ou seus trabalhos”". Responsáveis somos nós. Eles, trabalham pelo bem estar de todos. Puro desprezo.
Protesto fechando os dois sentidos da Avenida Doutor Arnaldo
Mais egoístas cercando o carro do secretário de Transportes, Alexandre de Moraes
Meu plano era não sair de casa porque queria compor pelo menos dez músicas. Decidi e repeti como um mantra que não sairia de casa porque precisava compor. Eu não vou sair de casa porque preciso compor. Eu não vou sair de casa porque preciso compor. Eu não ia sair de casa porque precisava compor.
Então, do Asterix nós fomos – seis homens num Volkswagen Voyage 93 – para uma festa no CB. Tenho dificuldade em imaginar fato mais ridículo do que seis homens num Voyage 93 turbinado e que não estava tocando funk – era TV on the Radio. O assunto? “Po, tem um colega que se chamava Carlos e que agora vou ter que começar a chamar de Sandra, eu acho operações de sexo meio curiosas, sei lá”. Não sei se a situação provocou o assunto ou o receio, mas é algo a ser estudado.